Deitava-se sobre aquelas mãos grandes e calejadas. Sentia que as lágrimas escorriam contornando todo seu rosto ainda corado como uma maçã madura, lábios grandes descascados, as meninas dos olhos mortas e sem cor. Ela sentia que precisava de ajuda, sentia que aquela vida não era a dela, queria ainda correr atrás de borboletas e ser dona de casa, queria ver filmes e frequentar a casa da avó.
E agora? Esta tudo perdido? Errei no começo e não posso corrigir o final? - Com os longos fios de cabelo escondia todo o medo, e de novo renascia mulher.
Ele apertava entre os lábios finos um cigarro já apagado, acariciava seu corpo frágil, nú, tão puro e já tão cheio de verdades e pecados, ele a olhava dos pés a cabeça, colocava a mão entre suas pernas e sorria maliciosamente.
Todos os dias no mesmo horário ele chegava, um carro de marca pouco conhecida, placa amarelada e bancos gastos, buzinava e ela ja sabia o que tinha de fazer. Tomava seu banho de coragem e sempre deixava o chuveiro na agua fria. Os papéis de contas vencidas em cima da mesa ja era tantos que não se sabia ao certo qual era as de maior prioridade. O irmão mais novo brincava com um pedaço de madeira, chupeta azul, da cor do olhos lacrimosos da mãe que ficava por horas jogada no sofá da sala. As mãos trêmulas era a mesma que um dia eram fortes e trabalhavam sem parar. Os remédios de tarja preta cobriam um jornal que noticiava as ultimas ocorrências de estupros e prostituição infantil. Com a mochila nas costas, Renata pedia a benção da mãe para mais um dia de escuridão.
A verdade era que sua mãe acreditava que Renata ia na escola e depois trabalhava em um mercadinho, tinha orgulho da filha que fazia o papel do homem da casa, dando sustento e pagando as milhões de dívidas.....
Seu dia era longo e a noite tão curta.
Os sonhos estavam no mesmo lugar, alguns em rascunhos e outros dentro do seu Baú de brinquedos.
