domingo, 23 de setembro de 2012

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...Era meu último cigarro, era minha última chance.
   Eu havia lido no jornal que as torres gêmeas já não existiam mais, que ambas haviam sido vítimas de um ataque terrorista, que haviam se desfeito juntas!
  Bem, sei que a notícia é antiga, já se passaram 11 anos. Mas para tudo existe uma explicação, o motivo por eu lembrar desse acontecimento é a minha admiração pelo amor.
 Será que só eu consigo enchergar amor nisso?! Doentio, eu sei, mas só consegui pensar em duas almas se acabando ao mesmo tempo, almas gêmeas desmoronando juntas, pois uma sem a outra seria algo pela metade, não seria mais aquele espetáculo visto a olho nú.
  Me levantei e caminhei por algumas horas, mesmo a metros de distância eu podia sentir seu cheiro doce no vento que vinha da direção do seu apartamento.
  Seu cabelo no meu corpo na hora do nosso sexo cheirava a Jasmim e amor e, por incrível que pareça, nem um banho de Sal grosso era capaz de tirar esse cheiro de mim.
  Eu podia voltar embora e passar em algum bar qualquer, comprar mais um maço de cigarros e queimá-los sem procurar por ela. Mas não conseguia, nem que tentasse, não conseguia me esquecer de seu gosto.
 Eu notei que alguém apareceu na sacada, me escondi atrás do poste. Era ela, como podia alguém fazer com que meu coração batesse tão rápido? Eu sentia meu corpo tremer inteiro, como se nevasse e eu estivesse nú.
 Eu não queria que ela me visse, eu só queria continuar sentindo seu cheiro, só queria que o vento trouxesse a sensação de seus cabelos em mim.
Ela ficou ali, por alguma horas.
Será que ela me sentia também?
Não me importava mais, eu não tinha cigarros, nem passagem de volta para casa. No bolso só haviam algumas balas de hortelã e moedas antigas.
Minhas solas estavam gastas, meu cabelo desarrumado e meu coração nem se fale!
Me sentei na calçada, ainda longe de seus olhos castanhos, e comecei a me interrogar...
Certo de que Shakespeare, ao escrever suas obras, usava, talvez, acontecimentos pequenos ou grandes de sua vida, volto a dizer e dar ênfase, 'Talvez'.
Mas eu era fã de Romeu.
Romeu, meu caro Romeu, de onde tirou tanta coragem para escalar o muro até a janela de sua amada? Você não ganhou só um beijo naquela noite, você ganhou o coração dela e alguns calos na mão. Poderia me dizer como controlou os batimentos cardíacos e a transpiração nas mãos para subir? Por que acredito que você estava apaixonado, como eu estou, então as sensações deveriam ser as mesmas. Eu só precisava que em sua história existisse um depoimento de como foi fazer isso, para que eu pudesse ser tão bom e corajoso como você;
Pensei por alguns minutos:
-Vou gritar.. Julieta, não sou muito bom em escalar muros e minhas pernas estão trêmulas de mais para tentar chegar até aí, mas você poderia me presentear com seu coração e um bom café? Pois está bem frio aqui fora;
Ela com certeza me acharia um tolo, sorriria daquele jeito que faz meu rosto corar e me deixaria entrar. O único problema disso tudo é que eu não queria ficar só uma noite, eu queria ficar a vida inteira, eu queria ser sua alma gêmea, e viver com ela por toda a vida, até que por fim, algum ataque terrorista nos derrubasse, nos desmontasse. E para ser bem sincero, isso não me assustava, com tanto que desmoronasse-mos juntos eu aceitaria fácil viver e morrer por ela.



domingo, 4 de março de 2012

O relógio parou, deve ser amor.


Ela sentia medo, essa era a explicação para toda a falta de concentração.
Eu senti que seu coração estava apertado. Ali, sentada no sofá, ela procurava explicar todos os erros, os sonhos, as vontades, as cores das paredes, os livros não lidos e o amor abandonado.
Eu, por fim, desisti de ouvi-la, tudo parecia estar fora de ordem, fora de sintonia.
Antes que eu pudesse me levantar seus escuros olhos se encheram de lágrimas e suas mãos evitavam que as mesmas escorregassem por todo seu delicado rosto.
Eu estava ali, bem em frente ao amor escondido, ao amor proíbido.
Ela, insegura, queria mostrar que me amava e que as cartas que escreveu eram sinceras.
O relógio parecia parado. Ela tinha me pedido 60 segundos, uma confissão de duração tão curta teria algum efeito? Os mais sensatos e racionais saberiam que isso é insignificante, que ninguém consegue mudar um passado ou construir um futuro com apenas 60 segundos. Mas os loucos considerariam isso uma eternidade, o suficiente para mudar uma vida inteira, mudar pensamentos e dispertar sentimentos adormecidos.
Ela me olhou, olhou de novo e sorriu tentando esconder todo o nervosismo e o mal-estar.
Eu refleti e senti cada palavra dita.
Me calei sim, mas amei também.
Meu coração estava tão cheio de armaduras, e eu tão segura de minhas escolhas que me vi de pernas bambas quando senti o cheiro do seu cabelo.
O coração engana mesmo.
Olhei para o relógio e ele marcava a mesma hora.
Consequência das pilhas gastas? Seria os ponteiros travados? Seria a poeira?
Foram os 60 segundoas mais longos da minha vida; Então descubro que eu estava longe de ser racional, sensata.
Amor louco, louco amor.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Bailarina e Soldado de Chumbo ♥


Com as malas já arrumadas ela fazia sinal com a mão. Se despedia do leiteiro insegura da decisão tomada.
Sentia seu coração acelerado, mas não era em ritmo de carnaval, era como se estivesse velando seu próprio corpo, em volta as velas, flores e alguém dizendo com certa dor que a saudade ja era grande.
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Do outro lado da cidade, em uma lanchonete de esquina, estava eu, com a única foto dela que possuía. Minha pupíla dilatada delatando a escolha e deletando, com certa repulsa, o medo.
Ensaiei, por várias vezes, tomar aquele maldito café amargo, que por sinal já estava tão sem vida quanto as aves que voavam, rumo ao horizonte, alegando que logo o céu caíria em prantos pela partida da minha mulher amada.
Poderia eu, desejar algo que não fosse seus beijos?
Poderia eu, desejar algo que não fosse suas extremidades, intimidades...suas verdades?
Deixei o café frio e umas notas de gorjeta e saí.
Quando passei pela porta o sino tocou, revelando que ali partia alguém decidido, apaixonado, impulsivo, disposto ao sacrifício do seu orgulho.
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Ela sentia que o vento não soprava a seu favor, logo apareceria as primeiras gotas vindas do céu, já que as de seus olhos caíam descontroladamente a um certo tempo.
"Deus, faça o melhor por mim!" - Sua fé movia montanhas, encorajava os fracos e fazia dela uma mulher firme.
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No táxi, eu mascava um chiclete  já sem gosto, que achei em meu bolso junto com algumas moedas antigas e bilhetes do metrô.
Meus olhos percorriam e secavam toda a cidade, na ânsia de um breve e radical reencontro.
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O ônibus se preparava para dar um ponto final para todo o sofrimento.
Ainda com o coração apertado ela subiu o 1° degrau e antes que pudesse dar o 2° passo alguém segurou sua mão e falou alto:
" Por favor Bailarina, não abandone seu Soldado de Chumbo.
   Não teria graça nenhuma venerar sua caixinha de música sem você pra dançar nela."